PARVOVIROSE
CANINA
(Por Valéria Lara*)
Desde a década de 70, os vírus têm sido incriminados
como agentes primários de diarréia em cães, principalmente
em filhotes com menos de seis meses de vida. Dentre os vírus,
assume posição de destaque o parvovírus canino
(VPC) 1 e 2, descrito pela primeira vez em 1978. No Brasil, os primeiros
surtos de parvovirose ocorreram em 1980, atingindo cães de todas
as idades. A partir daquele ano, o parvovírus canino tornou-se
uma doença endêmica no País, acometendo principalmente
animais jovens e organicamente debilitados. Atualmente, o parvovírus
canino continua ser uma das principais causas de diarréia infecciosa
em cães e se encontra amplamente distribuído.
Etiologia e epidemiologia
A
parvovirose é o termo utilizado para designar a enfermidade infecto-contagiosa,
cujo agente etiológico é um vírus pertencente à
família Parvoviridae, podendo sobreviver no meio ambiente durante
meses e anos.
O parvovírus canino responsável por gastroenterite aguda
parece estar limitado somente aos canídeos. Infecções
naturais têm sido descritas em cães domésticos (Canis
familaris), cães-do-mato (Speothos venaticus), coiotes (Canis
latrans), lobinhos (Cerdocyon thous) e lobos-guarás (Chrysocyon
brachyurus).
O vírus é transmitido pela eliminação fecal
e a porta de entrada é a via oral. Porém, a infecção
experimental pode ser produzida por várias vias, incluindo oral,
nasal ou oronasal e pela inoculação IM, IV ou SC. Durante
o período agudo da doença, são excretadas dez partículas
virais por grama de fezes. O vírus pode estar presente em outras
secreções e excretas durante a fase aguda da doença.
Postula-se que insetos e roedores possam carrear o vírus de um
local a outro, no entanto, salienta-se estudos posteriores para reforçar
esta teoria. A ocorrência de surtos de enterites por VPC em alguns
cães de canis sugerem que o transporte por pessoas ou fômites
contribuem para a disseminação da infecção.
Acredita-se que a disseminação da doença se dá
muito mais pela persistência do vírus no meio ambiente
do que pelos portadores assintomáticos. A eliminação
ativa do vírus nas fezes parece estar limitada nas primeiras
duas semanas pós-inoculação (PI). Entretanto, existem
evidências que alguns cães podem eliminar o vírus
periodicamente por mais de um ano.
Há uma notável variação na resposta clínica
dos cães à infecção por parvovírus
canino, oscilando entre infecções inaparentes à
moléstia aguda fatal menos freqüente. Fatores predisponentes
à moléstia grave são a idade, os fatores genéticos
(como diferenças raciais em susceptibilidade), estresse e infecções
simultâneas com parasitas ou bactérias intestinais. A idade
tem mostrado uma forte relação com o agravamento da enfermidade.
Geralmente, filhotes com menos de seis meses de idade apresentam uma
necessidade maior de hospitalização, quando comparado
com animais mais idosos.
Sintomatologia
Os
sinais clínicos mais comuns da parvovirose são anorexia,
depressão, vômitos, pirexia, rápida desidratação,
diarréia sanguinolenta, líquida e fétida. A morte
de animais severamente afetados é uma conseqüência
da destruição extensa do epitélio intestinal, com
conseqüente desidratação, além da possibilidade
de choque endotóxico. A necrose da mucosa intestinal e dos linfonodos
mesentéricos durante a parvovirose pode predispor as infecções
bacterianas.
Os agentes bacterianos secundários mais comumente isolados são
E. coli, Campylobacter spp., Salmonella spp. e Clostridium spp.. Septicemia
e/ou endotoxemia podem ocorrer como resultado direto destes patógenos
bacterianos.
Profilaxia
A vacinação dos cães é o tratamento profilático
mais recomendado. Atualmente, há várias vacinas comerciais
disponíveis. A primeira dose deve ser aplicada em filhotes com
60 dias de idade, seguida de reforço aos 90 e 120 dias e anualmente,
durante toda existência do animal. Entretanto, em alguns casos,
recomenda-se vacinar filhotes com 45 dias de vida, quando estes não
receberam o colostro e suas mães não tenham sido vacinadas
anteriormente.
Durante o quadro clínico da doença, o animal infectado
deve ser mantido isolado dos outros cães da casa, devendo-se
evitar também a contaminação de jardins e lugares
difíceis de serem desinfetados, os quais possam favorecer a persistência
da partícula viral infectante. Após a infecção
ambiental recomenda-se o vazio sanitário por um período
mínimo de 30 dias para introdução de outro animal.
Apesar de todos os esforços na prevenção e controle
da parvovirose canina, esta doença continua a ser um problema
na clínica médica veterinária, ressaltando a importância
de campanhas de esclarecimento constantes.
*
Pós-graduanda na área de Vigilância Sanitária
pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu (SP).
FONTE: Revista Cães & Gatos - Número 86 - Ano 14 -
Nov/Dez/2000